João Manuel: exemplo que nunca irei esquecer (Marca Pessoal)
Vou partilhar agora com todos os amantes do desporto rei a história que me liga com feição, admiração e carinho ao falecido João Manuel. Ao verem este nome questionam-se de imediato: mas quem foi este sujeito? Aparentemente passou despercebido da maioria da opinião pública durante a sua vida futebolística. Mesmo da sua doença e da sua posterior morte, poucos falaram. Então eu digo-vos quem ele era.João Manuel Loureiro dos Santos nascido no dia 31 de Agosto de 1967 em Moimenta da Beira distrito de Viseu. Era médio, gostava de organizar jogo, mas também era bom a defender quer à direita, quer à esquerda. A sua carreira foi iniciada no Viseu Benfica em 87/88. Seguiu-se a primeira época no escalão maior com a idade de 21 anos na equipa do Académico de Viseu. Foi a primeira de 4 épocas na cidade de Viriato. De 92 a 95 militou no meio campo da BRIOSA (sempre na divisão de honra). Teve épocas de muita categoria em Coimbra mas, foi em Leiria que o seu nome se evidenciou para os mais atentos ao desporto rei. Ergueu a camisola leiriense durante 9 épocas, 8 na primeira divisão, 1 na divisão de honra. Por fim, já com 37 anos, após uma saída completamente amarga de Leiria (mais à frente esclarecerei), transferiu-se para o Moreirense na época de 04/05.
Este foi o modesto João Manuel que realizou 254 jogos na primeira divisão marcando 4 golos. Fez 36 jogos na Taça de Portugal e foi à final na época de 02/03 com o Leiria. Na Europa jogou 4 jogos e fez 1 golo na época de 03/04.
Mas a vida tem notícias amargas, notícias consternantes. João Manuel ao serviço dos Cónegos começou a sentir alterações no seu corpo. Sempre esteve habituado a fazer flexões e um dia perdeu as forças nos braços. Foi um episódio esporádico mas que o levou ao médico de confiança. Um médico de Coimbra pegou no seu caso e diagnosticou pouco tempo depois uma terrível doença: esclerose múltipla. João Manuel começava aí a sua aflição, o seu maior sofrimento como ser humano. Iniciava também uma boa dose de restrições, quer físicas, quer alimentares. O Moreirense perdia o seu mais veterano jogador devido a uma doença mortífera. A doença atacou-o de tal forma que o João Manuel, que era sempre o primeiro a chegar aos treinos, nunca mais o pôde fazer. Era um profissional a cem por cento. Era um homem de valores e com enorme disciplina. Lembro-me duma imagem que vi dele nos tempos de Mourinho no Leiria: havia um exercício físico para fazer e, João Manuel com 35 anos esticava a perna como um fuso e conseguia com a mão direita chegar ao pé esquerdo, já Laranjeiro, miúdo de 19 anos, não o conseguia fazer. Se bem que são anos de exercício físico, há que notar a idade avançada de João Manuel. Uma imagem que me marcou. A doença ia progredindo e criou-se uma onda de solidariedade para com João Manuel. Realizou-se um jogo em Coimbra com profissionais da I Liga para arrecadar fundos como forma de auxílio ao nosso craque. Foi condecorado pelo Presidente Jorge Sampaio. Teve acompanhado até à última página da sua vida pelos desportistas, pelos colegas e pela mulher e filho. João Manuel era um homem “distorcido”. A voz não era igual devido à doença. Num dia de tristeza e consternação para com o futebol acontece isto: “João Manuel, de 37 anos, jogador de futebol que se viu afastado da sua carreira de profissional por sofrer de esclerose múltipla, faleceu na manhã desta quarta-feira, no hospital Nossa Senhora da Oliveira, em Guimarães.” Era o fim. Num dia que podia ser de glória para o futebol português, este 18 de Maio de 2005 fica marcado pela tristeza: falece João Manuel e o Sporting perde a UEFA para os Russos.
Recebi a notícia com muito desagrado. Acompanhava diariamente como podia a situação deste mago. Fiquei abatido e com uma tristeza que demora a ir embora sempre que falo dele. A doença é uma coisa que acontece mas é sempre difícil de aceitar. Ainda por cima num desportista leal, rigoroso e muito profissional. Um artista. Gostava de fotografia. Mas afinal porque é que eu gosto tanto dele?
Como sabemos, as coisas que se fazem enquanto crianças marcam-nos para a vida toda. Eu nessa fase do desenvolvimento da vida, criei uma brincadeira. Penso que é única no mundo: cortar cromos de revistas e jornais e, num tapete de subutteo, fazia rolar uma bola de prata de cozinha para os pequenos cromos de papel jogarem. E, nesses jogos criei feições “extra-futebol” por alguns jogadores. Um deles foi João Manuel, era ele quase sempre o melhor do Leiria, o melhor assistente para golo, o mais vezes homem do jogo. Adorava pegar naquele pequeno cromo de papel e tilinta-lo na bola de prata para o fundo da rede. Esta brincadeira, que mesmo que não seja, vai ser sempre para mim original ajudou-me a gostar ainda mais de João Manuel. Quando somos mais novos isso marca-nos. Ao longo dos anos que acompanho futebol com regularidade fui vendo, também regularmente, João Manuel nas revistas de apresentação ou balanço de época em destaque. Qualquer treinador que tivesse o colocava a titular fosse em que posição. Claro que no meio campo ele se sentia melhor. E pronto a vida treinou-me o gosto e ajudou-me a preferir João Manuel (não sei se é questão de veteranos mas com Wilson a afeição é parecida).
A sua saída do Leiria ainda me fez gostar mais dele. Simplesmente pela lealdade até ao último minuto que mostrou pela equipa. Ele, na última época em Leiria, época possivelmente de despedida dos relvados, começou a ser rejeitado a pouco e pouco. Lembram-se como tramaram Bilro? João Manuel teve sentença parecida. Não creio que seja culpa de Vítor Pontes, então treinador. Penso que foram pressões superiores. Decorriam as últimas jornadas da época 03/04. No último jogo em casa do Leiria, o qual poderia ser a despedida em campo de João Manuel, convocaram 1 jogador a mais, ou seja 19 jogadores, por ironia do destino o nosso amigo nem ao banco foi (foi o que sobrou dos 19, nem respeito nem gratidão), ficou na bancada e lembro-me de ler que ele chorou pela tamanha ingratidão: não foi só o facto de ser o “sobrante” mas também, a não explicação das causas de todo o processo de rejeição a que estava a ser sujeito.
Percebem agora a minha admiração por este profissional irrepreensível no trato? Percebem que no futebol há pessoas especiais mesmo para os adeptos mais afastados? João Manuel irá sempre ser contado nas minhas histórias de vida. Não o esqueçam. Não custa nada. Ele lá em cima agradece!
Um abraço amigo!
Força e um bom ano!
André Trindade

3 Comments:
Não sei se ainda tens este blog a funcionar mas eu vim encontrá.lo pois de repente lembrei-me deste homem e de pesquisar por ele no youtube e google a ver o que encontrava sobre ele. Com mágoa percebi que no youtube não há um único vídeo com imagens suas, e aqui no google encontrei este artigo do teu blog. Fica a saber que também nunca vou esquecer João Manuel. Dos melhores profissionais que vi no futebol. Era um senhor e um grande jogador. Infelizmente são os melhores os primeiros a ir. Lá em cima ele está a olhar por todos nós. Se depender de mim ele vai ser sempre lembrado. Um abraço.
Boa noite caro André Trindade;
na sequência deste post tenho um convite a fazer-lhe. gostaria de poder entrar em contacto consigo para lhe puder explicar o que tenho em mente, podendo confiar plenamente em mim com a certeza que adorará o que tenho para lhe dizer.
Os melhores cumprimentos.
João Manuel sempre!
Nuno Fonseca
Conheci o Joao pessoalmente, feizmente. Tenho saudades dele.....
Enviar um comentário
<< Home