sábado, fevereiro 18, 2006

Galáticos ou nem tanto? (vale a pena ler)

A pergunta que serve de mote para mais um post, surgiu de uma sugestão concedida por um leitor habitual deste blog. O referido leitor desejava que um de nós desenvolvesse o tema Real Madrid. Pois bem, pelo prazer que tenho em satisfazer os pedidos dos nossos leitores, quero passar desde já ao assunto que me foi indicado.

O Real Madrid após o surto de vitórias (internas e externas) entre os finais da década de 90 e os inicios do novo milénio, tem vivido dias difíceis.

Os louros destas vitórias podem, e devem, perfeitamente, ser divididas pelo ex-Presidente Lorenzo Sanz e pelo actual, e reeleito, Florentino Peréz.
Lorenzo Sanz (eleito em 1995) fechou o seu mandato a 16 de Junho de 2000 e, como grandes conquistas, deixou na sala de troféus do clube, entre outros títulos, 2 Ligas dos Campeões (contra Juventus e Valência, respectivamente, 1998 e 2000) e uma Taça Intercontinental (2000). Contudo, e após o 26º título da Liga Espanhola a ser conquistado pela anterior direcção, Sanz apenas conseguiu uma Liga Espanhola (96-97) subindo a parada para 27 títulos caseiros. Conquistou ainda a Supertaça Espanhola referente a esse título ante o Barcelona. Como disse acima, os louros são bem divididos.

Florentino Peréz vence as eleições contra Lorenzo Sanz, como já referi acima, em Junho de 2000. Estamos em 2006, e perante isso, possuimos 5 anos e meio ("mais coisa menos coisa" ) para analisar o desempenho de Peréz. Cabe reiteirar que ele foi reeleito em 2004. (E lá estava Sanz como adversário).

Peréz entra no Real Madrid e, de imediato, se mostra como um Presidente opulento com poder para investir. Era público o seu interesse em montar um "super-Real" com jogadores de ouro. Mas, não perdeu a cabeça, foi por fases. Mal se viu na cadeira de Presidente fez, na altura, a maior proposta de transferência por algum jogador de futebol alguma vez existente. Falo-vos do nosso Luís Figo. O médio português deixou o Barcelona e, por 10 milhões de contos, rumou a Madrid.
Para juntar esta mega-transferência a algo rentável no campo, o Real Madrid venceu o seu 28º título logo no segundo ano com Peréz como Presidente. O dia de 26 de Maio de 2001 foi inesquecível para Luis Figo, pois este, no ano de estreia pelos "brancos" venceu a Liga Espanhola. Luis Figo, diga-se a título de curiosidade, encheu Peréz de orgulho e satisfação ao ganhar o prémio FIFA World Player em 2001.

No ano seguinte, Peréz voltou a surpreender o mundo do futebol ao contratar Zinedine Zidane (por 15 milhões de contos), envolvendo o ex-Juve na transferência mais cara do mundo, superando a sua própria marca anterior. Em 2002 começa uma série de Vitórias importantes. Todavia o ano começa mal para os merengues. Na comemoração do seu centenário, o Real Madrid, perde em casa a final da Taça do Rei frente ao Deportivo da Corunha (2-1).

Essa derrota no dia do centenário ficou, aparentemente, apagada com a vitória da Liga dos Campeões (15 de Maio) nesse mesmo ano. De facto, os comandados de Vicente Del Bosque, venceram o Bayer Leverkursen por 2-1 (o jogo ficou marcado pela beleza do golo de Zidane).

A 30 de Agosto de 2002, o Real Madrid tem um dos dias mais importantes da sua história futebolística. Um título sempre fugido era finalmente conquistado. A SuperTaça Europeia é vencida sobre o Feynoord por 3-1.

Continuando com o hábito de agitar o mercado de jogadores no Verão, Florentino Peréz, contrata Ronaldo, o fenómeno. Após o fabuloso Mundial realizado, o atacante brasileiro, passa a ser um dos madrilenos. A transferência foi cara, mas infelizmente, não vos posso precisar o seu valor. Começa aqui, julgo eu, a atribuição do termo Galáticos à equipa da Capital Espanhola. Figo, Zidane, Ronaldo..já começava a cheirar a galáxia!

A 3 de Dezembro de 2002, o Real Madrid torna-se Campeão Mundial vencendo a Taça Intercontinental sobre o Olímpia de Assunção do Paraguai. Com este título, o Real Madrid fecha um 2002 em Grande!

Em 2002-2003, ou seja, já com Ronaldo na equipa, o Real Madrid sagra-se campeão Espanhol pela 29ª vez. Aliás, durante esta época, a última de Del Bosque no comando técnico dos "brancos", a Liga Espanhola, apesar de ter sido conquistada em 2003, junta-se à Taça Intercontinental. A carreira na Liga dos Campeões terminou nos quartos de final. A meu ver, uma das grandes (e péssimas) decisões do Presidente Peréz foi, no final da temporada, juntamente com o final de Del Bosque, a saída do jogador francês Makelelé, que até hoje, nunca teve um verdadeiro substituto à altura no onze merengue.

O ano desportivo entrava em pré-época e do Presidente esperavam-se algumas propostas "refulgentes". Que treinador o Real iria ter, pois Del Bosque terminou o seu legado e, em jeito de "fofoca", qual era o Galático que viria. A estas perguntas o Presidente respondeu com Carlos Queiróz e David Beckham. O conceituado técnico português trocou a sua posição de adjunto de Alex Ferguson para ser o número 1 dos Galáticos. Essa conotação ficou ainda mais reforçada pela contratação mais mediática de sempre (pelo menos para as revistas sensacionalistas) por parte do Real Madrid. David Beckham, o número 23, juntava-se pelo quarto Verão seguido à colecção de diamantes de Florentino Peréz.

Carlos Queiróz até não começou nada mal. Venceu a Supertaça Espanhola no início da época. Com José Peseiro como adjunto, o técnico Português protagonizou uma Supertaça histórica. E histórica porquê? Porque do lado do Maiorca, adversário dos merengues, estava Jaime Pacheco como técnico principal. Por certo que irá ser uma raridade outra Supertaça Espanhola com 2 técnicos portugueses (e num jeito de má língua, tão diferentes em todos os aspectos lol)

Contudo, a época, tanto interna como externa foi uma miragem a comparar com outros anos. A Liga dos Campeões terminou nos Oitavos-de-final (com o Mónaco). O Campeonato foi para o Valência. A Taça foi perdida também. Carlos Queiróz no fim da época não tinha alcançado nenhum título e Florentino Peréz mandou-o embora. Muitos analistas defenderam Queiróz. De facto, ele deve ser defendido. Com, aparentemente, tanta capacidade financeira por parte do Real e seu Presidente, a política de contratações era do mais absurdo, paradoxal, incongruente pois só priveligiava jogadores de ataque, ou pelo menos, de meio campo ofensivo. Carlos Queiróz viu-se obrigado, em certos jogos, a ordenar Beckham para o meio do terreno ao lado de Guti. Então e trinco não havia? Não havia. Helguera tentou ser esse trinco. Um jovem chamado Borja tentou fazer, igualmente, algo pela equipa mas era muito novo para aquela importante função. Sentiam-se as perdas de capacidade de Zidane, pois este não tinha por trás o intansponível Makelelé. Figo tinha jogos em que estava completamente perdido. Ronaldo ainda animava os merengues com alguns golos. Raúl estava em situação contra-producente.

Estavamos em ano de Europeu e, a própria pátria, não fez muito no certame. É curioso porque ficou no gurpo A, grupo esse em que as equipas apuradas foram as finalistas do torneio. Florentino Peréz, apesar da época agitada e pouco produtiva, foi reeleito pelos sócios. Arrigo Sacchi foi nomeado CEO do Futebol do Real.

Aproximava-se uma nova (pré)-epoca. Os merengues parecem quer reconstruir-se para a nova época. Contratam José António Camacho, ex-técnico do Benfica, que vinha de uma vitória na Taça de Portugal e, a política de contratações "mediáticas" parece continuar mas, desta vez, para outras áreas que não só o ataque. Walter Samuel é o quinto diamante de Peréz (todos os Verões lapidou um). O argentino tem uma característica que os outros diamantes não tinham, este veio para jogar na Defesa, sector que, vinha sendo alvo de muitas críticas. Mas, apesar de ter contratado o senhor Samuel, o Presidente dos merengues, não conseguiu resistir à tentação e foi buscar mais um pedaço de ouro, desta vez, a terras de sua majestade. Falo-vos de Owen (Wonder Kid). O "menino de ouro" de Liverpool juntava-se a Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham, Roberto Carlos, Raúl, Samuel, Guti, entre outros. Ainda juntou o defesa inglês Jonathan Woodgate a esta autêntica montra do futebol mundial.

José António Camacho no clube do seu coração, cedo viu que mesmo com aquelas estrelas todas, nada brilhava nos resultados da equipa. O excesso de jogadores ofensivos, mesmo com a contratação de 2 defesas não resolveu o problema. E esse, já vinha de trás. Será que o problema foi mesmo a saída de Makelelé? Camacho orientou durante 3 meses a equipa de Madrid e bateu com a porta. Ainda se falou de ficar como director técnico do Real, isto é, uma hipótese tácitamente acordada de quem está lá por estar. Ele não quis e saíu mesmo. Entrou, também por 3 meses, o Espanhol Garcia Remon, que não soube lidar com a galáxia que tinha.

Foi contratado o super-famoso Wanderley Luxemburgo, treinador de grandes créditos na pátria do futebol, e este, não ganhou nada, pois o Barça parecia estar a renascer, ficando apenas 11 meses como técnico dos merengues. Ainda fez a pré-época da equipa, tentando encontrar soluções pertinentes para voltar com o "velho Real". A meio da temporada anterior, logo quando chegou aos merengues, parece ter feito algo no que concerne ao meio campo defensivo, contratando o dinamarquês Thomas Gravesen. A futebol do Real é sempre a espaços, depende do "apetite" dos artistas que ganham milhões com adeptos que estam lá sempre a apoiá-los. Como se explica andarem tão abaixo da média e tirarem da cartola jogões como, por exemplo, aquele frente ao Barcelona em que venceram por números clarividentes? Parecem só jogar quando lhes apetece.

A época de 04-05 foi uma nulidade, não conquistaram nenhum troféu mas, Wanderley continuou nos quadros do clube para organizar mais uma temporada. O útlimo título, pelas contas deste post, foi a supertaça Espanhola de Queiróz em 2003. Já estamos em 2006. Para o Real é muito tempo sem ganhar algo de importante. E quando não há vitórias, as equipas não moralizam. As estrelas dão pouco para constelação e preferem ser cometas que dão notícias quando "o rei faz anos". O primeiro diamante de Peréz foi embora. Luís Figo, completamente desnorteado nos útlimos 2 anos no Real, preferiu (a meu ver bem), mudar de ares. Partiu para o Inter de Milão. O Real Madrid contratou Robinho (diamante Brasileiro) e mais um avançado. Contratou Julio Baptista (o trinco feito goleador em Sevilha), o melhor marcador da anterior edição da Liga Espanhola, contratou outro ex-Sevilhano, o defesa creditado Sérgio Ramos, contratou Pablo Garcia (trinco de qualidade duvidosa), e em Dezembro contratou Cicinho (lateral Brasileiro conceituado) e Antonio Cassano (diamante italiano ex-Roma) A saída mais marcante foi Owen (que não se adaptou) para o Newcastle. As coisas não começaram bem e à pouco tempo atrás o técnico brasileiro foi destituido do cargo.

O ex-técnico da equipa B, Juan Lopéz Caro, dirige a equipa principal do Real Madrid. Foi a solução encontrada por Peréz. O Real Madrid foi recentemente eliminado da Taça do Rei, está na 2ª Posição da Liga Espanhola a 7 pontos do Barcelona e, nos oitavos-de-final da Champions, (competição muito em aberto) irá defrontar o Arsenal. Veremos o que o futuro lhes reserva.

Conclusões/Reflexões

Nunca podemos duvidar que o Real tenha bons jogadores, isso nunca. Mas, muitas estrelas não fazem uma equipa. Isto sim, é notório. Com Del Bosque e só Figo e Zidane como nomes sonantes (ainda assim com Makelelé) o Real viveu momentos de Glória. Florentino Peréz abusou, claramente, dos diamantes de Verão.
A constelação merengue passa dias dificeis. Desde Carlos Queiróz que, na exacerbada aposta em estelas mediáticas, o Real como equipa nunca mais ganhou nada de especial. É um facto paradoxal. Tanto dinheiro, tanto poder financeiro para investir e adquirir craques e, essa mesma aquisição, é feita sobre jogadores, possivelmente, não muito acertados. Muito se falou de Patrick Vieira, mas sempre vieram cracks de fato de gala, quando realmente, o que o Real precisa, são jogadore de fato de macaco. Digo eu, que não percebo nada disto!

Após este post, podemos respoder á pergunta de partida. A meu ver a resposta é: "eles são galáticos, mas não funcionam como tal!" E pronto, satisfaz-se um leitor, desmistifica-se uma "charada". Força merengues!

Um abraço,

André Trindade (perdão pelo post ser extenso)

P.S - Há jogos em que chego a ter pena do Casillas, do Salgado, do grande Roberto Carlos, do Helguera e muito principalmente do Raúl. Ainda bem que o Figo mudou de ares!