segunda-feira, dezembro 26, 2005

Luís Castro: o discurso do método para empolgar a equipa

«Às vezes, deixo-me entregar à minha intuição e à minha sensibilidade. Há dias em que tenho um discurso e utilizo palavras que empolgam o plantel. Não é nada pensado, apenas me deixo ir». Luís Castro sempre fez do discurso uma das máximas do seu trabalho para obter o melhor rendimento possível dos jogadores. «Ele fala muito, fala da família, toca-nos o coração e ouvi-lo chega a arrepiar», explica Pedro Moita, seu jogador no Estarreja e na Sanjoanense. «Conhece bem cada um de nós. Sabe a quem pode berrar e a quem deve sorrir, porque nem todos os jogadores podem ser estimulados da mesma forma», reconhece Clayton, extremo do Penafiel.
Foi através da observação dos adversários e da motivação dos seus atletas que o actual treinador do Penafiel subiu a pulso porque não cursou futebol na faculdade. Ao serviço do Estarreja, então na terceira divisão, foi a Alvalade para a Taça de Portugal e chegou a ter o jogo empatado com o Sporting. Mas seria eliminado. Ali apercebeu-se da montra que era a alta-roda do futebol. «Antes do jogo apareceu uma página da minha equipa em A Bola, no Record e em O Jogo. No final, fui à sala de Imprensa, só me fizeram uma ou duas perguntas e um repórter de uma rádio disse em directo que o Luís Castro teve o seu minuto de fama».
A frase ficou-lhe entranhada na cabeça como tónico para o episódio seguinte. Subiu o Estarreja e viu que podia ir mais além no futebol. «Sentia progressão, sentia que os meus jogadores estavam a gostar, que motivava a equipa e sentia que estava a cavalgar». Há dois anos chegou à Sanjoanense, da II Divisão B, e o sorteio da Taça de Portugal foi generoso. «Quando nos calhou o Gil Vicente, apercebi-me que tinha de aproveitar aquele momento. Quando vou a um jantar de gala tenho de aproveitar o momento, tenho de ir bem vestido, não posso ir de ganga». Foi o que fez. Estudou bem a mecanização do adversário e explorou os pontos fracos até à exaustão.
Antes do desafio usou alguns trunfos. «Contei aos meus jogadores a doença que tive quando era pequeno. Aquele era um momento alto, era a altura oportuna para o fazer. O treinador deles tinha ultrapassado o problema mais difícil da vida dele. Portanto, eles também podiam ultrapassar o Gil Vicente que não era mais difícil do que uma doença. Tinha a convicção de que íamos ganhar em Barcelos». E eliminou o Gil Vicente, abrindo as portas da Superliga. O nome de Luís Castro ficou na mente de todos, inclusive na mente do presidente do Penafiel, António Oliveira, que o convidou para suceder a Manuel Fernandes à terceira jornada. Esta época repetiu o método. «Falei ao grupo da minha doença antes de jogarmos frente a um grande. Mas perdemos¿»


Luís Castro: as folhas de papel coladas no balneário

«A minha paixão pela táctica surge nos infantis». Luís Castro tinha 35 anos e terminava a carreira de futebolista no Águeda. Primeiro projecto: ser técnico de crianças. «Quando era jogador não prestava muita atenção às tácticas dos treinadores, apenas me mentalizava naquilo que me diziam para cumprir a minha missão dentro do campo». Mas depressa se apercebeu que o caminho tinha de ser outro. Foi a treinar miúdos que se dedicou à análise da estratégia para superar o adversário. Passou a comprar livros sobre futebol, frequentou cursos de treinadores e transformou-se num autodidacta porque não estudou educação física na faculdade.
Naquele período converteu-se no disciplinador que é hoje. «Apercebi-me que o rigor e a disciplina eram importantes. Obrigava os miúdos a não dizerem asneiras, a estudar, a chegar a horas aos treinos. Se chegassem atrasados já não entravam em campo e se tivessem más notas não eram convocados. Comecei com trinta e cinco crianças e terminei com as mesmas trinta e cinco». Teve sucesso. Na terceira divisão assume o comando técnico dos seniores do Águeda, depois de ter sido adjunto durante duas épocas, conseguiu o quinto lugar e na temporada seguinte foi promovido à II Divisão B. «Mas não tínhamos um plantel muito forte e levei a única chicotada da minha carreira».
Era um duro revés. Mas meses depois é convidado por Luís Simões, o seu actual adjunto e na altura director técnico, para assumir os destinos do Mealhada, que estava nos distritais: «Bati no fundo mas é aqui que começa a ascensão da minha carreira». Luís Castro passa a usar métodos inovadores para a época: «Recolhia dados com um ou outro colega, ia ver um ou outro jogo e colava informações sobre a equipa adversária na parede do balneário. Ao longo da semana os jogadores iam lendo aquilo. Às vezes, inventávamos porque era impossível ver todos os adversários e aquelas folhas já faziam falta aos jogadores. Tinham um efeito psicológico». E tudo muda.
Luís Castro vai enriquecendo conhecimentos sobre a metodologia de treino com o seu actual adjunto Luís Simões, um perito na matéria e uma das chaves do sucesso: «Ele melhorou as minhas capacidades e mostrou-me aspectos que me passavam ao lado. Soube absorvê-los. Foi fundamental na minha ascensão». Num ápice, levou o Mealhada à poule final de campeão e deu o salto para o Estarreja, então na terceira divisão. A primeira época não foi positiva, mas subiu na temporada seguinte. «Foi a primeira vez que vi um treinador usar um quadro magnético e a fornecer elementos sobre as características do adversário. Quando entrávamos em campo já sabíamos o que tínhamos de fazer», recorda Pedro Moita, seu jogador, actualmente no desemprego.